Como gerir a Dor Dupla da Perda e da Responsabilidade de Cuidar da Família
Perdi meu pai: como ser o pilar da família agora? é, provavelmente, a pergunta que ecoa em sua mente neste exato momento. Antes de mais nada, é fundamental entender que essa sensação é avassaladora e completamente normal. De repente, além da sua própria dor profunda e paralisante, parece que todos os olhares se voltam para você, esperando força, direção e consolo. Contudo, a perda de um pai é um dos processos de luto mais complexos e transformadores que existem.
A primeira e mais importante coisa a aceitar é que não há um manual de instruções, nem uma forma “certa” de fazer isso. Neste artigo, vamos explorar não apenas como você pode, realisticamente, oferecer suporte aos seus entes queridos, mas também, e igualmente importante, como você pode sobreviver a esse processo sem se desintegrar. Afinal, ser um pilar não significa ser inquebrável ou imune à dor.
Na verdade, e talvez paradoxalmente, significa encontrar uma nova forma de força justamente na vulnerabilidade compartilhada. Consequentemente, este guia foca em como superar o luto do pai enquanto se navega, simultaneamente, pelas novas e pesadas responsabilidades que recaem sobre seus ombros.

Compreendendo o Papel de “Pilar”
Primeiramente, é crucial desmistificar o que realmente significa “ser o pilar” da família. Muitas vezes, nossa cultura associa essa figura a um estoicismo irreal, ou seja, alguém que não chora, que resolve todas as questões práticas (como o funeral ou burocracias) com eficiência fria e que oferece um ombro sem jamais precisar de um. No entanto, essa visão não é apenas irreal; ela é profundamente prejudicial para você. Na realidade, ser o pilar agora significa, antes de tudo, ser um ponto de conexão e permissão.
Significa, por exemplo, ser aquele que talvez incentive a conversa aberta sobre a saudade, ou que organiza o caos logístico inicial (documentos, cerimônias) não porque você não está sofrendo, mas apesar de estar. Além disso, é ser a pessoa que lembra aos outros membros da família, talvez sua mãe ou seus irmãos, que está tudo bem não estar bem. Portanto, o primeiro passo é abandonar a capa de super-herói ou super-heroína.
Em vez disso, concentre-se em ser presente, acessível e, acima de tudo, autêntico em sua própria dor. Eventualmente, a força que os outros perceberão em você virá não da ausência de lágrimas, mas da sua coragem de senti-las e, ainda assim, continuar funcionando e cuidando.
Permita-se Viver o Seu Próprio Luto (A Prioridade)
Antes de tentar consertar ou amenizar a dor alheia, você precisa, obrigatoriamente, olhar para a sua. Inegavelmente, você também perdeu seu pai. Você é filho ou filha, e essa dor é visceral, única e intransferível. Assim sendo, seu luto é tão válido, urgente e necessário quanto o de qualquer outro membro da família. Muitas vezes, a pessoa que assume o papel de “pilar” se coloca em último lugar na fila do cuidado, o que, inevitavelmente, leva ao esgotamento físico, mental e emocional, ou a um luto complicado e adiado.
Por conseguinte, entender por que o luto dói tanto é o primeiro passo para se dar a permissão de vivê-lo. Depois disso, aceite que você passará por todas as fases do luto, e elas não são lineares. Haverá negação, haverá muita raiva, talvez barganha com o destino, uma tristeza profunda, até que, finalmente, a aceitação comece a surgir, não como esquecimento, mas como integração da perda.
Portanto, tire momentos para si, mesmo que sejam curtos. Seja para chorar sozinho no chuveiro, seja para buscar terapia ou um grupo de apoio, ou apenas para ficar em silêncio e processar. Porque se você não processar sua própria dor, eventualmente ela se manifestará de formas muito mais prejudiciais, talvez meses ou anos depois. Você não pode ser um pilar se sua própria fundação estiver rachada.

Estratégias para Apoiar a Família (Sendo o Pilar)
Uma vez que você aceita seu próprio processo e se permite ser vulnerável, fica um pouco mais fácil apoiar os outros de forma saudável. Contudo, esse apoio precisa ser tanto prático quanto emocional. Aqui estão algumas abordagens que funcionam, pois ser um pilar é, também, ser um facilitador:
- Comunicação Aberta e Honesta: Incentive conversas sobre seu pai. Muitas famílias caem no erro de evitar o nome do falecido, pensando que isso diminui a dor, quando, na verdade, só aumenta o isolamento. Fale sobre memórias boas, mas também permita que falem sobre a raiva ou arrependimentos.
- Validação dos Sentimentos Alheios: Cada pessoa na família (sua mãe, seus irmãos, seus tios) terá uma reação diferente. Alguns podem parecer “frios”, outros, histéricos. Entenda que não existe luto certo ou errado. Seu papel é validar todos eles. Frases como “Eu entendo que você sinta isso” são mais poderosas do que “Não chore”.
- Organização Prática e Delegação: Imediatamente após a perda, há uma avalanche de tarefas práticas (inventário, contas, etc.). Como pilar, você pode ajudar a organizar isso, mas não precisa fazer tudo sozinho. Delegue. Peça a um primo para cuidar das ligações, a um amigo para organizar as refeições. Distribuir tarefas também dá às pessoas um senso de propósito em meio ao caos.
- Cuidado Especial com os Mais Vulneráveis: Se houver crianças na família, o luto infantil exige uma abordagem honesta, mas adequada à idade. Da mesma forma, sua mãe (seus pais eram casados) pode estar vivenciando um tipo de luto completamente diferente (luto do parceiro), que exigirá uma paciência e apoio extras.
- Lembre-se: Confortar alguém é mais sobre ouvir do que falar.

Cuidando de Si Mesmo para Cuidar dos Outros
Como mencionado anteriormente, mas que precisa ser reforçado: o autocuidado não é opcional; é a sua ferramenta de trabalho mais essencial neste momento. Isto é, para ser um pilar que não desmorona, você precisa de uma base sólida. Frequentemente, no turbilhão do luto, negligenciamos o básico da sobrevivência humana, o que só piora a sensação de névoa e desespero. Portanto, preste atenção de forma consciente e deliberada em:
- Alimentação e Hidratação: Parece básico, mas o corpo de luto gasta uma energia enorme. Você precisa de combustível. Mesmo que não tenha fome, tente comer algo nutritivo.
- Sono: Dormir pode ser quase impossível. Tente, pelo menos, descansar. Evite cafeína em excesso e tente manter uma rotina mínima de deitar e levantar.
- Movimento: Uma pequena caminhada pode ajudar a limpar a mente e a liberar endorfinas. Não se force a exercícios pesados, apenas mova o corpo.
- Ajuda Profissional: Terapia do luto é fundamental. Você precisa de um espaço neutro onde possa desabar sem sentir que está sobrecarregando alguém ou falhando em seu papel de “pilar”.
Basicamente, o que ajuda a superar o luto é um conjunto de pequenas ações diárias de autopreservação. Mesmo que pareça impossível tirar a tristeza, pelo menos você pode gerenciar o esgotamento físico, o que já torna a carga emocional um pouco mais leve.

Lidando com Dinâmicas Familiares Complexas
Infelizmente, a perda de um patriarca, que muitas vezes era o centro gravitacional da família, pode expor ou agravar conflitos familiares latentes. De repente, surgem disputas sobre inventário, sobre o que fazer com a casa, ou antigos ressentimentos entre irmãos vêm à tona com força total. Nesse sentido, seu papel como pilar pode, indesejadamente, se transformar no de mediador. Contudo, seja muito realista sobre seus limites.
Primeiramente, estabeleça limites claros. Ou seja, você pode (e deve) se recusar a participar de discussões destrutivas. Você pode facilitar a comunicação, sugerir um mediador profissional (como um advogado de família), mas não pode resolver décadas de problemas relacionais sozinho, e muito menos enquanto você mesmo está de luto. Além disso, observe atentamente os sinais de alerta em si mesmo e nos outros, especialmente os sinais de quando o luto vira depressão, pois isso exige intervenção profissional imediata e não apenas apoio familiar.
Reconstruindo a Família: O Novo “Normal”
Com o tempo, e ele é o único remédio para a intensidade da dor, o luto agudo começa a diminuir. No entanto, é uma ilusão achar que a vida voltará ao “normal” de antes. Em vez disso, vocês, como família, construirão um novo normal, um normal onde seu pai está presente na ausência. Isso implica, por exemplo, criar novas tradições em datas comemorativas, como o primeiro Dia dos Pais ou o primeiro
Natal sem ele. Implica também em aprender a falar sobre seu pai não apenas com a tristeza da perda, mas também com a gratidão pelas memórias e pelo legado deixado. Embora seja um processo doloroso e muito lento, eventualmente a família encontrará um novo equilíbrio, uma nova forma de funcionar. Aliás, existem muitas lições que o luto nos ensina que, apesar de dolorosas, trazem uma profundidade inesperada à vida e aos relacionamentos que ficam.
Conclusão: Um Pilar Também se Apoia
Finalmente, a pergunta “Perdi meu pai: como ser o pilar da família agora?” não é uma pergunta com uma resposta única ou fácil. Em suma, ser o pilar é um ato de equilíbrio delicado entre a força necessária para as tarefas práticas e a vulnerabilidade essencial para a cura emocional. Acima de tudo, lembre-se de que um pilar, por definição arquitetônica, não foi feito para ficar sozinho; ele funciona como parte de uma estrutura.
Pelo contrário, um sistema forte tem múltiplos pontos de apoio. Portanto, peça ajuda. Seja para amigos que estão fora do furacão emocional, seja para terapia profissional, ou até mesmo para outros membros da família, surpreendentemente. Aprender como superar o luto é, em grande parte, uma jornada coletiva, mesmo que a dor seja individual. Em última análise, os passos essenciais envolvem compaixão, tanto pelos outros quanto, principalmente, por você mesmo.
Porquanto, a maior homenagem que você pode prestar ao legado do seu pai é viver e ajudar sua família a viver plenamente, mesmo na ausência dele, carregando o amor que ele deixou como base para o seu novo papel.
